quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O encanto dos Tajás

Extraído e adaptado de Jangada Brasil

Não é apenas pelo seu feitio decorativo que o tajá (Caladium bicolor) é festejado na Amazônia como planta de estimação. Mais do que pela esbelteza das folhas, pela graça e pela elegância do corte, pela simplicidade geométrica das linhas, ele possui segredos e mistérios que só a alma cabocla entende e aprecia. 

Enorme é a variedade dessas plantas que formam as vistosas e esmeradas toiças da planície: tajapeba, com a sua raiz chata; o tajá-piranga, de uma coloração vermelha, belo aspecto, perigoso pelo veneno, e cujas raízes eram utilizadas pelos indígenas do Uaupés como o castigo para as mulheres curiosas que se atreviam a espiar as cerimônias maçônicas do Jurupari, o tajá-pinima, o tajá tatuado, cheio de manchas; o tajá grande, o tajá preto, o tajá-de-sol, o tajá membeca, o tajá-puru, este a espécie mais sugestiva e preferida pelas virtudes que lhe são atribuídas às raízes de fazer-nos felizes nos amores e afortunados e bem sucedidos na caça e na pesca.

Possuindo uma heráldica, uma tradição cativante que o recomenda às preferências domésticas, já pelo talho ornamental, já pelos irresistíveis dotes talismânicos, o tajá é visto em profusão nas casas de família de Belém e Manaus e espalha-se pelas habitações de todo o interior, graças aos poderes secretos que lhe emprestam os mestres da pajelança local.

Possuem os tajás uma história poética, uma origem lendária, que Nunes Pereira colheu no alto do Rio Branco e divulgou no primeiro número do Boletim da Sociedade Felipe d’Oliveira – Lanterna verde. Vai aqui um resumo:

Esses índios macuxis, que viviam ao sabor das hordas inimigas, sem pouso certo, ora às margens do Uraricuéra, do Kuting e do Surumuru, ora insulados em Maracá – eram o mais doloroso atestado de fraqueza e covardia entre o espetáculo de bravura das tribos circunvizinhas.

De quando em quando os purukotós, os rekunas, os talipangs, os wapischauas topavam-nos, em pequenas guerrilhas, onde nem sequer as menores destrezas épicas sobressaiam, e lá se iam eles fixar novas malocas e tabas, foragidos do antigo pouso solitário para buscar na fortaleza da terra aquilo que o braço lhes negava.

Não tinha tantas mulheres nem irmãos, e o amor não morava entre eles como uma coisa pura e sagrada.

Veio, porém, para a raça desprezível dos macuxis o seu dia de redenção.

Pakalamoka, sem que ninguém soubesse, saiu de sua taba, sorrateiro e solerte, e foi buscar a salvação da tribo nos conselhos da Mãe-do-Mato. Contou as misérias da sua gente, falou dos combates desesperados e trágicos, dos quais voltavam reduzidos, na vileza das fugas precipitadas.

A Mãe-do-Mato esqueceu as sementes que andava a enterrar pelos desvãos da floresta e ensinou ao índio o meio de livrar o povo enfraquecido das doenças e do Keyemé para que dominasse a terra nos milagres do amor e da vida.

Quando a lua clareou a planície, já encontrou Pakalamoka a caminho de um campo aberto, onde as palmeiras não flabelavam os leques felizes e onde existia um lago que há muito não dessendentava os animais dos arredores.

Quase ao fim da jornada, o índio deparou um bando alacre de korotoikós voando em direção à lua em terrível algazarra.

Pakalamoka fixou a que voava mais alto, e arremessou-lhe a flecha certeira. A ave caiu adiante. Ele se aproximou, reuniu-lhe em torno do capim tostado de sol e galhos partidos pelo vento, e, friccionando duas pedras de fogo que trouxera, inflamou os gravetos e a grama, e a fogueira se elevou pela noite clara.

Pakalamoka deitou-se perto e dormiu.

Pela manhã, quando Pakalamoka acordou – informa o narrador – em redor dele e dentro e em redor do lago, se aglomeravam os tajás que as macuxis hoje conhecem – com folhas de vários feitios e cores deslumbrantes.

E todos esses tajás tinham virtudes especiais.

E o novo pajé, que se tornou Pakalamoka, deles se servia preferentemente.

Havia o tajá, que defende a roça e a casa do índio.

Havia o tajá, que torna o índio bom caçador e bom pescador.

Havia o tajá, que torna o índio invisível aos inimigos e aos olhos mesmo do Keyemé.

Havia o tajá, que o poupa das fadigas da guerra, da pesca, da caça e das viagens.

Havia o tajá, que o faz ganhar nas provas e nas lutas tradicionais da tribo.

Havia o tajá, que o faz querido das mulheres...

Pakalamoka arrancou os tajás (como lhe ensinou a Mãe-do-Mato) necessários ao trabalho, à saúde, à paz, aos amores e à felicidade dos macuxis, levando-os para o seu povo.

E é por isso que a tribo se fez numerosa, dela fogem os seus inimigos, nunca lhe faltam os peixes e a caça, cessaram as doenças e os índios e as índias têm filhos robustos".

É variada e encantadora, na Amazônia, a superstição do tajá. Existe na família das aroideas uma profusão de espécies que se prestam, admiravelmente, às abusões do povo. Entre estas, vale citar o tajá-cobra. Diz-se que protege a casa contra os ladrões. Uma folha, posta na parede, estende-se em volta e toma conta do domicílio. Se este é visitado por gatunos, o tajá-cobra reconhece o meliante e dá-lhe o bote, tal como o faria uma serpente. História semelhante é atribuída ao tajá-onça.

A mais bela versão é, entretanto, emprestada ao tajá-sol. Possui este, no centro da folha, uma grande mancha vermelha com o formato de um coração cercado pela moldura verde. Quando os índios estavam longe de sua amada e sentiam a necessidade de vê-la, recorriam a um processo mais veloz que o aeroplano e menos dispendioso que a televisão. Gritavam pelo nome da pessoa desejada, no centro do tajá-sol. E logo a imagem do ente querido aparecia na parte rubra da folha, como num espelho incendiado pelo poder da ausência.

No nosso folclore musical existe, hoje, uma linda canção, composta por Waldemar Henrique sobre informações de Nunes Pereira, intitulada Tamba-tajá. É outra deliciosa lenda de fundo nativo, refletindo o amável fabulário que o índio teceu em torno da heraldíca dos nossos tinhorões. 

"Tamba-tajá, me faz feliz.
Que meu amor me queira bem.
Que o meu amor seja só meu,
de mais ninguém
que seja meu,
todinho meu,
de mais ninguém.

Tamba-tajá, me faz feliz,
assim o índio carregou sua macuri
para o roçado, para a guerra, para a morte,
assim carregue o nosso amor a boa sorte.

Tamba-tajá, me faz feliz.
Que mais ninguém possa beijar o que beijei,
Que mais ninguém escute aquilo que escutei,
nem possa olhar dentro dos olhos que eu olhei,
Tamba-tajá, tamba-tajá".


(Orico, Osvaldo. Vocabulário de crendices amazônicas. p.227-232)

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